sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Raízes


Os olhos estavam ali, presos em suas orbitas, imóveis. Tinham coloração verde-limão, e as púpilas, minúsculas, focavam-se na parede, branca, como se mirassem um grão de areia preso ao cimento.
A mente estava em algum outro local. Organizando e escolhendo em detalhes, imagens e lembranças, algumas desfocadas e vagas. Procurava por algum momento do passado, onde havia perdido sonhos.
Continuava buscando, revirando, como um louco que procura entre escombros, alguma resposta. Como chegou até ali?
Sabia que no anseio de ser aceito, havia deixado para trás parte de si mesmo. Quem sabe por medo. Quem sabe por apego. Quem sabe por temer a sua própria e real faceta. Nem ao menos sabia o quanto era valorosa.
Tornara-se uma pessoa diferente, do que desejou ser na infância. De qualquer modo, não havia deixado de lutar, de ser forte. Aquele traço estava ali, ainda exercia alguma influência em seus movimentos, um tanto quanto calculados.
Porém, esse mesmo traço de força, queria romper as estruturas da máscara que havia criado. Queria se mostrar da maneira como era, e não da maneira como os outros esperavam. Queria deixar que cicatrizassem os machucados causados pela doença de agradar aos outros. Queria agradar a si mesmo.
Voltou à atenção ao que estava mais profundo, quase inatingível. Como se mergulhando num mar gelado e escuro, desceu mais fundo do que poderia se recordar. Tocou páginas brancas, rabiscadas com desenhos e textos. Inéditos traços de personalidade, que lhe pareciam tão distantes, apareceram tão claros quanto as lágrimas que escorriam pelos mesmos olhos, que dantes estavam vidrados. Agora estavam embaçados, como que atingidos por uma chuva de verão.
Veio a melancolia e a saudade. Aflorou-se novamente a força. Esboçou um sorriso, que nunca deveria ter saído dali.

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