Os olhos estavam ali,
presos em suas orbitas, imóveis. Tinham coloração verde-limão, e as púpilas,
minúsculas, focavam-se na parede, branca, como se mirassem um grão de areia preso
ao cimento.
A mente estava em algum
outro local. Organizando e escolhendo em detalhes, imagens e lembranças,
algumas desfocadas e vagas. Procurava por algum momento do passado, onde havia
perdido sonhos.
Continuava buscando,
revirando, como um louco que procura entre escombros, alguma resposta. Como
chegou até ali?
Sabia que no anseio de
ser aceito, havia deixado para trás parte de si mesmo. Quem sabe por medo. Quem
sabe por apego. Quem sabe por temer a sua própria e real faceta. Nem ao menos
sabia o quanto era valorosa.
Tornara-se uma pessoa
diferente, do que desejou ser na infância. De qualquer modo, não havia deixado
de lutar, de ser forte. Aquele traço estava ali, ainda exercia alguma
influência em seus movimentos, um tanto quanto calculados.
Porém, esse mesmo traço
de força, queria romper as estruturas da máscara que havia criado. Queria se mostrar
da maneira como era, e não da maneira como os outros esperavam. Queria deixar
que cicatrizassem os machucados causados pela doença de agradar aos outros. Queria
agradar a si mesmo.
Voltou à atenção ao que
estava mais profundo, quase inatingível. Como se mergulhando num mar gelado e
escuro, desceu mais fundo do que poderia se recordar. Tocou páginas brancas,
rabiscadas com desenhos e textos. Inéditos traços de personalidade, que lhe
pareciam tão distantes, apareceram tão claros quanto as lágrimas que escorriam
pelos mesmos olhos, que dantes estavam vidrados. Agora estavam embaçados, como
que atingidos por uma chuva de verão.
Veio a melancolia e a
saudade. Aflorou-se novamente a força. Esboçou um sorriso, que nunca deveria
ter saído dali.
Nenhum comentário:
Postar um comentário